Trecho da crônica Não Vem Com Romance, de Gabito Nunes.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
gosto cinza na boca
"Por mim tudo bem assim, por ora não anseio mais fundir almas, compartilhar risos e diálogos interessantes, coisas que posso obter a partir de meus bons livros, meus filmes, antigas fotografias coloridas de sorrisos, meus amigos esquisitos que vou encontrar logo mais adiante. Gosto do meu individualismo, só me encontro dentro dele, lá fora cansei das pessoas trocarem ideias, mentiras, vantagens, idiossincrasias. Não importa o quanto me fazem rir e sentir um pouco mais distante da morbidez. Vocês sempre terminam me magoando quando servem-se de metade, só um pedacinho de mim. O eterno gosto incômodo de cinza na boca."
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Pendências
"Você ainda pensa em mim com o coração? Porque eu ainda penso. Me atende, vem pra cá, diz pra mim o que eu realmente sinto. E o telefone fica mudo, me falando dessa mania infantil de achar que as coisas são como quero, que as pessoas deveriam falar tudo de acordo com os meus tímpanos. Aí volto a odiar você, porque mesmo de longe me obriga a ser honesta comigo mesma. Depois volto a amar você, mais e mais, e de jeitos estranhos e palpitantes.
Atrás de algum motivo esfarrapado ou número alternativo, vejo sua agenda de anos mal passados, perdida numa gaveta de lembranças sem brilho. Folheio e acho bonitinho o seu jeito de organizar compromissos um abaixo do outro, dias diferentes, tudo na mesma página, com marcações histéricas, querendo muito estar entre suas pendências.
E sorrio chorando porque, ali onde completa quem chamar em caso de emergência, tem meu nome e telefone. E deixo mais mil chamadas perdidas no seu visor, porque na minha também tem o seu. E se isso não é emergência, não sei o que é."
Gabito Nunes
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